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terça-feira, 6 de outubro de 2026

As cicatrizes e os ciclos da minha vida

A minha trajetória tem sido moldada por ausências profundas e por combates silenciosos. Cresci com a marca do abandono paterno e sob o olhar de uma mãe que, embora lutasse como uma supermulher, não conseguia projetar grandes horizontes para o meu futuro. Ao mesmo tempo, vi o meu irmão afastar-se do nosso núcleo, escolhendo a corporação dos bombeiros como a sua verdadeira família.

Durante mais de quatro décadas, resguardei-me na crença de que a minha mãe seria o meu porto seguro, o meu refúgio inabalável. Contudo, aos 45 anos de vida, fui confrontada com uma realidade dolorosa: a existência de dois pesos e duas medidas no seu amor e dedicação. Há alguns meses, ao pedir-lhe um simples auxílio para passar lençóis a ferro — uma tarefa com a qual ironicamente não me consigo entender —, ela cedeu, mas não sem antes verbalizar o peso da sua tendinite e o desgaste dos seus ossos. Em contrapartida, assisto agora, em silêncio, ao tratar de cestos transbordantes de roupa, sem uma única queixa de cansaço. Sentir esta disparidade provoca-me uma revolta legítima; no entanto, vejo-me na contingência de assistir a tudo de braços cruzados. Para não alimentar discórdias e preservar a paz familiar, emudeço a minha voz e limito-me a ser espetadora deste filme injusto que se desenrola diante dos meus olhos.
Reconheço que o passado também guarda as minhas próprias falhas. Houve momentos em que não procedi da melhor forma com a minha mãe. Noutros, ela considerou que a minha sanidade exigia um internamento. Assim se passaram três longos e dolorosos anos da minha vida, num processo penoso de recuperação psicossomática e reintegração social. No meio de tanta gente que circulava por aquela instituição, o que eu realmente habitava era uma solidão avassaladora.
Foi nesse deserto emocional que o Renato se revelou. Sendo apenas um amigo na altura, transformou-se no meu farol, visitando-me piamente todos os domingos. Até que, a 11 de outubro de 2015, ganhei a coragem de o questionar sobre o nosso rumo. Com um misto de timidez e esperança, ele perguntou-me: "Namoramos?". O meu "sim" selou o início da nossa história.
Desde então, temos caminhado lado a lado e, este ano, paira sobre nós o plano de trocar alianças, oficializando o nosso compromisso. No entanto, a proximidade deste passo definitivo fez desabar sobre mim uma avalanche de incertezas. Sinto uma saudade imensa da paixão vibrante do nosso início, daquela chama que nos unia e que, com o passar do tempo, parece ter esmorecido. Hoje, fomos engolidos por uma rotina que nos transformou muito mais em companheiros e grandes amigos do que propriamente em namorados. Essa apatia mútua assusta-me e traz-me um medo devastador: o medo profundo de o magoar, a ele, que sempre foi o meu apoio mais sincero.
Enfrento agora um trabalho interior complexo e doloroso. Sei que preciso de redescobrir o espaço que o Renato ocupou no meu peito durante tantos anos. É um esforço duplo: por um lado, procuro desesperadamente reacender a chama da paixão perdida; por outro, tento pacificar o meu coração para aceitar e valorizar o amor nesta sua nova forma, mais calma, madura e serena.
Apesar da tempestade que hoje me habita, recuso-me a perder a esperança. Acredito convictamente que a vida é feita de ciclos. Sei que preciso de atravessar este deserto de dúvidas, de silêncios e de observação do outro para que, finalmente, possa emergir num novo ciclo de abundância, de verdadeiro amor e de profunda empatia.
Eu sei que te amo, Renato.

Bárbara de Sotto e Freire

segunda-feira, 5 de outubro de 2026

Cortar laços é sobreviver

"Às vezes cortar laços não é uma escolha... é sobrevivência.
Chega um momento em que as pessoas que você ama começam a custar a sua paz, seu respeito próprio e sua felicidade.
Você continua dando chances, dando desculpas e esperando que elas mudem, enquanto lentamente se perde no processo. A verdade é que nem todos que te machucam merecem ter acesso continuado a ti.
Algumas pessoas só levam, outras nunca valorizam, e outras vão continuar a partir o teu coração desde que continues a devolver-lhes.
Afastar-se não significa que você deixou de se importar; significa que você finalmente está cansado de sangrar por pessoas que nunca se importaram se você estava ferido.
A certa altura, tens de escolher entre salvar a relação e salvar-te a ti próprio.
E, às vezes, salvar-se a si mesmo, é a única opção que resta..."

Autor desconhecido

Bárbara de Sotto e Freire

Do fundo da alma

"É raro encontrar alguém que conheça não apenas quem somos, mas também tudo naquilo que tivemos de ultrapassar para chegar até aqui.

As nossas versões mais  bonitas.

As nossas inseguranças.

Os erros que nunca contamos.

As feridas que escondemos.

As escolhas que ainda não sabemos se nos orgulhamos.

Porque todos temos parte da nossa história que não mostramos a qualquer pessoa.

No último lugar que importa, as relações vão muito além do que é visível.

Há sentimentos que se revelam devagar.

Verdades que mudam perspectivas.

E momentos em que conhecer verdadeiramente alguém significa que essa pessoa tentou esconder.

Talvez amar alguém seja, em parte, ter coragem de conhecer a história inteira e não apenas os capítulos bonitos."


De Rute Coelho, citação do livro "No último lugar do mundo que importa"


Bárbara de Sotto e Freire

domingo, 4 de outubro de 2026

Maturidade Emocional

«Sempre tive muitos altos e baixos e a minha vida nunca coube naquela ideia de felicidade estável, serena e bem-comportada que nos apresentam como exemplo de equilíbrio.

Sempre fui muito intensa nas emoções  boas, na forma como me entrego ao que amo, na alegria quase infantil com que vivo aquilo que me entusiasma, e fui igualmente intensa na dor, no medo, na tristeza e em todos os momentos em que a vida me pareceu maior do que a força que eu tinha para a enfrentar.

Passei grande parte da minha vida a lutar contra as circunstâncias, a tentar controlar quilo que acontecia e exigir de mim uma calma que raramente combinava com o que eu estava a viver. Havia dias em que me sentia capaz de mudar tudo e outros em que mal consegui acreditar que alguma coisa pudesse mudar. Carreguei durante anos a vergonha dessas oscilações, como se devesse pedir desculpa por sentir tanto, como se uma mulher forte tivesse de permanecer emocionalmente direita enquanto a vida lhe mudava o chão de lugar.

Demorei a perceber que muitas das minhas quedas nasceram depois de demasiado tempo a aguentar, a calar, a adaptar-me e a continuar. O corpo  cansava-se, o coração chegava ao limite e eu ainda me perguntava por que razão já não conseguia manter a mesma boa disposição, a mesma esperança ou a esma capacidade de resolver tudo. Julguei-me muitas vezes no exto momento em que mais precisava de me tratar com cuidado.

continuo a ter altos e baixos, continuo a viver dias luminosos e outros em que me custa arranjar espaço dentro de mim para tanta coisa. A diferença chegou quando deixei de me abandonar sempre que uma emoção difícil aparecia. Já consigo ficar ao meu lado quando a tristeza demora, respeitar o cansaço antes dele se transformar em desespero e aceitar que a minha intensidade também guarda tudo aquilo que tenho de mais vivo, inteiro e verdadeiro.

Hoje já não procuro uma vida sem oscilações, mas uma forma mais gentil de atravessar cada uma delas. Aprendi que não preciso de estar sempre bem para estar a avançar, nem transformar cada dor numa lição imediata. Há dias em que simplesmente sobrevivo, e isso também conta. A paz começou quando deixei de lutar contra quem sou e passei a confiar que, mesmo no momentos em que e sinto perdida, continuo a merecer o meu próprio amor.

Passamos anos a tentar disfarçar aquilo que sentimos para parecermos equilibradas, fortes e capazes de lidar com tudo. Guardamos a tristeza, apressamos o cansaço, diminuímos a alegria e vigiamos cada mudança dentro de nós com receio de estarmos a sentir mais do que devíamos. A vida mexe conosco, há dias que nos levantam e outros que nos deixam sem saber onde pousar o coração.

Continuamos inteiras em todos eles.»

By Bárbara Pereira in Facebook


Bárbara de Sotto e Freire

quinta-feira, 1 de outubro de 2026

O Despertar dos 45: Onde o Futuro Ganha Nova Cor

Para o mal dos meus pecados — ou talvez para o bem da minha própria história — a menopausa bateu-me à porta. O diagnóstico do médico de família apenas deu nome a uma tempestade que o meu corpo já sentia: a azia persistente, o peso que teima em aumentar há um ano, as dores que pesam nos ossos, o cansaço que rouba os dias, o sono que teima em não vir e, no cúmulo de tudo, o roubar o prazer da intimidade.

Ganhei um título novo e algo a que chamam "idade".
Não falo da idade dos 20 anos, essa juventude irreverente e cheia de escolhas das quais ainda hoje me arrependo. Nem falo dos 30, a era de construir família e colecionar momentos perfeitos com filtros de Photoshop no Facebook. Refiro-me à verdadeira idade dos "entas". Os 40 entraram na minha vida sem pedir licença, velozes e sem um guião definido, fazendo-me questionar o rumo do meu próprio futuro. E os 45? Esses chegaram com um travo amargo. Viver com as hormonas aos saltos, olhar para o espelho sem saber o que vestir para disfarçar o abdómen e sentir dores nos ossos que travam os meus movimentos faz-me perguntar: que perspectiva tenho eu agora?
A resposta é simples e bonita: a perspectiva de me reconstruir.
Esta fase não é o fim da linha, mas sim o início de uma era onde posso, finalmente, cuidar de mim com a prioridade que mereço. Os 45 anos trazem a maturidade que os 20 não tinham e a liberdade que os 30 não permitiam. Cada sintoma — da falta de lubrificação às dores no corpo — tem solução médica, seja através de tratamentos localizados, ajustes no meu estilo de vida ou terapias que devolvem o equilíbrio ao organismo.
O meu futuro não parou; ele está apenas à espera que eu mude o foco. Deixo de tentar esconder-me nas roupas e passo a procurar o bem-estar absoluto. É tempo de resgatar a minha energia, o meu sono, o prazer de namorar e a alegria de me mover. A vida aos 45 não perdeu o rumo — ganhou, finalmente, a profundidade que só as mulheres maduras sabem apreciar.

Bárbara de Sotto e Freire

quarta-feira, 10 de setembro de 2025

A famosa saga do resgate do chapéu amarelo

Ontem de manhã apanhamos o Ferry para irmos para a ilha de Tavira.

Desde que andamos no rio, em Vale de Cambra, que ofereceram ao meu marido dois chapéus amarelos, tipo cocos, então andamos sempre os dois com os chapéus amarelos e dizemos que somos o gang dos chapéus amarelos.

Retomando, íamos para a ilha, e o meu marido diz-me assim "olha aquela salina", eu viro-me para trás e lá se foi o meu chapéu com o vento. Fiquei triste porque o nosso gang já não mais existia, e o meu chapéu amarelo lá se fora.

À vinda para cá o meu marido diz-me assim "olha depois da curva, se não está na margem o teu chapéu amarelo". Eu olhei e ele lá estava, na beira da água, todo preto da lama que lá se encontra, mas com uma tirinha amarela que o fazia identificar. O meu marido inseriu as coordenadas no telemóvel, e quando descemos do ferry começou a nossa saga de resgate do chapéu amarelo.

Deixamos o carro e fomos a pé pelo molhe, e depois veio a parte pior: o meu marido teve que descer o molhe, através de rochas que não estavam bem intercaladas, e chegou a um pântano. Ele pousou um pé e foi-lhe logo lama até aos joelhos. Lá foi ele, numa atitude heroica, pé ante pé, que aquilo também escorregava até que chegou ao chapéu amarelo. Apanhou-o e fez o percurso contrário, e chegou ao pé de mim com o meu chapéu amarelo.

Foi lavar as pernas e os pés à bomba de gasolina e então fomos almoçar.

Moral da história: nunca te dês por vencido e mesmo a sombra mais longa termina com o nascer do sol.

Já somos novamente o gang do chapéu amarelo.


Bárbara de Sotto e Freire

domingo, 31 de agosto de 2025

A cultura da inclusão IV

Estamos numa fase em que se fala muito sobre inclusão social, mas pouco se vê.

Fiquei muito contente, quando me dirigi ao shopping e numa loja o senhor que estava a registar na caixa, não só era negro, o que desbrava logo o caminho das outras cores que não os caucasianos, tinha já alguma idade, o dá alguns retoques a "a partir dos quarenta esquece seres vendedor e vires para o balcão; os quarenta são o desemprego de muitas mulheres por atingirem a idade daquilo que a maquilhagem não tapa", e tinha um défice neurológico, não sei se cognitivo ou não. Trabalhava muito lentamente, mas fez tudo o que os colegas faziam, picou o preço, dobrou o produto, com alguma dificuldade mas fê-lo, perguntou se precisávamos de NIF e de saco. Concluiu a venda de forma cordial e educada, e assim passou ao cliente seguinte

Fiquei encantada por estarem a fazer a inclusão social de pessoas como este senhor, que ,embora com limitações, pode trabalhar e com mestria, com calma, com ponderação. Para ele uma venda é um ato heroico porque não sabe se os dedos vão paralisar ou não. O seu sorriso dava-lhe um ar de felicidade. De tantas desgraças que passou na vida, tinha, ao menos agora, um pouco de paz. Ganhava o seu ordenado por mérito e por justiça social.

Devia ser obrigatório incluir pessoas com diferenças da população geral. Porque elas também são pessoas, também sentem, e muitas vezes apenas por serem um pouco mais lentas são postas de lado, como se lhes faltasse competência, formação ou uma imagem agradável. Facto é que temos que passar pelo escrutínio das chefias até que elas nos digam "não se esqueça de vir maquilhada".

Devíamos estar a viver a cultura da inclusão. Não apenas com um funcionário que nos atendeu numa loja, mas em vagas que existem em tantas lojas e lugares por aí a precisar de serem preenchidas. 

Pensem nisso senhores políticos.


Bárbara de Sotto e Freire