A minha trajetória tem sido moldada por ausências profundas e por combates silenciosos. Cresci com a marca do abandono paterno e sob o olhar de uma mãe que, embora lutasse como uma supermulher, não conseguia projetar grandes horizontes para o meu futuro. Ao mesmo tempo, vi o meu irmão afastar-se do nosso núcleo, escolhendo a corporação dos bombeiros como a sua verdadeira família.
Solve et coagula
Concentra e dispersa as tuas energias conforme a situação
terça-feira, 6 de outubro de 2026
As cicatrizes e os ciclos da minha vida
segunda-feira, 5 de outubro de 2026
Cortar laços é sobreviver
Do fundo da alma
"É raro encontrar alguém que conheça não apenas quem somos, mas também tudo naquilo que tivemos de ultrapassar para chegar até aqui.
As nossas versões mais bonitas.
As nossas inseguranças.
Os erros que nunca contamos.
As feridas que escondemos.
As escolhas que ainda não sabemos se nos orgulhamos.
Porque todos temos parte da nossa história que não mostramos a qualquer pessoa.
No último lugar que importa, as relações vão muito além do que é visível.
Há sentimentos que se revelam devagar.
Verdades que mudam perspectivas.
E momentos em que conhecer verdadeiramente alguém significa que essa pessoa tentou esconder.
Talvez amar alguém seja, em parte, ter coragem de conhecer a história inteira e não apenas os capítulos bonitos."
De Rute Coelho, citação do livro "No último lugar do mundo que importa"
Bárbara de Sotto e Freire
domingo, 4 de outubro de 2026
Maturidade Emocional
«Sempre tive muitos altos e baixos e a minha vida nunca coube naquela ideia de felicidade estável, serena e bem-comportada que nos apresentam como exemplo de equilíbrio.
Sempre fui muito intensa nas emoções boas, na forma como me entrego ao que amo, na alegria quase infantil com que vivo aquilo que me entusiasma, e fui igualmente intensa na dor, no medo, na tristeza e em todos os momentos em que a vida me pareceu maior do que a força que eu tinha para a enfrentar.
Passei grande parte da minha vida a lutar contra as circunstâncias, a tentar controlar quilo que acontecia e exigir de mim uma calma que raramente combinava com o que eu estava a viver. Havia dias em que me sentia capaz de mudar tudo e outros em que mal consegui acreditar que alguma coisa pudesse mudar. Carreguei durante anos a vergonha dessas oscilações, como se devesse pedir desculpa por sentir tanto, como se uma mulher forte tivesse de permanecer emocionalmente direita enquanto a vida lhe mudava o chão de lugar.
Demorei a perceber que muitas das minhas quedas nasceram depois de demasiado tempo a aguentar, a calar, a adaptar-me e a continuar. O corpo cansava-se, o coração chegava ao limite e eu ainda me perguntava por que razão já não conseguia manter a mesma boa disposição, a mesma esperança ou a esma capacidade de resolver tudo. Julguei-me muitas vezes no exto momento em que mais precisava de me tratar com cuidado.
continuo a ter altos e baixos, continuo a viver dias luminosos e outros em que me custa arranjar espaço dentro de mim para tanta coisa. A diferença chegou quando deixei de me abandonar sempre que uma emoção difícil aparecia. Já consigo ficar ao meu lado quando a tristeza demora, respeitar o cansaço antes dele se transformar em desespero e aceitar que a minha intensidade também guarda tudo aquilo que tenho de mais vivo, inteiro e verdadeiro.
Hoje já não procuro uma vida sem oscilações, mas uma forma mais gentil de atravessar cada uma delas. Aprendi que não preciso de estar sempre bem para estar a avançar, nem transformar cada dor numa lição imediata. Há dias em que simplesmente sobrevivo, e isso também conta. A paz começou quando deixei de lutar contra quem sou e passei a confiar que, mesmo no momentos em que e sinto perdida, continuo a merecer o meu próprio amor.
Passamos anos a tentar disfarçar aquilo que sentimos para parecermos equilibradas, fortes e capazes de lidar com tudo. Guardamos a tristeza, apressamos o cansaço, diminuímos a alegria e vigiamos cada mudança dentro de nós com receio de estarmos a sentir mais do que devíamos. A vida mexe conosco, há dias que nos levantam e outros que nos deixam sem saber onde pousar o coração.
Continuamos inteiras em todos eles.»
By Bárbara Pereira in Facebook
Bárbara de Sotto e Freire
quinta-feira, 1 de outubro de 2026
O Despertar dos 45: Onde o Futuro Ganha Nova Cor
Para o mal dos meus pecados — ou talvez para o bem da minha própria história — a menopausa bateu-me à porta. O diagnóstico do médico de família apenas deu nome a uma tempestade que o meu corpo já sentia: a azia persistente, o peso que teima em aumentar há um ano, as dores que pesam nos ossos, o cansaço que rouba os dias, o sono que teima em não vir e, no cúmulo de tudo, o roubar o prazer da intimidade.
quarta-feira, 10 de setembro de 2025
A famosa saga do resgate do chapéu amarelo
Ontem de manhã apanhamos o Ferry para irmos para a ilha de Tavira.
Desde que andamos no rio, em Vale de Cambra, que ofereceram ao meu marido dois chapéus amarelos, tipo cocos, então andamos sempre os dois com os chapéus amarelos e dizemos que somos o gang dos chapéus amarelos.
Retomando, íamos para a ilha, e o meu marido diz-me assim "olha aquela salina", eu viro-me para trás e lá se foi o meu chapéu com o vento. Fiquei triste porque o nosso gang já não mais existia, e o meu chapéu amarelo lá se fora.
À vinda para cá o meu marido diz-me assim "olha depois da curva, se não está na margem o teu chapéu amarelo". Eu olhei e ele lá estava, na beira da água, todo preto da lama que lá se encontra, mas com uma tirinha amarela que o fazia identificar. O meu marido inseriu as coordenadas no telemóvel, e quando descemos do ferry começou a nossa saga de resgate do chapéu amarelo.
Deixamos o carro e fomos a pé pelo molhe, e depois veio a parte pior: o meu marido teve que descer o molhe, através de rochas que não estavam bem intercaladas, e chegou a um pântano. Ele pousou um pé e foi-lhe logo lama até aos joelhos. Lá foi ele, numa atitude heroica, pé ante pé, que aquilo também escorregava até que chegou ao chapéu amarelo. Apanhou-o e fez o percurso contrário, e chegou ao pé de mim com o meu chapéu amarelo.
Foi lavar as pernas e os pés à bomba de gasolina e então fomos almoçar.
Moral da história: nunca te dês por vencido e mesmo a sombra mais longa termina com o nascer do sol.
Já somos novamente o gang do chapéu amarelo.
Bárbara de Sotto e Freire
domingo, 31 de agosto de 2025
A cultura da inclusão IV
Estamos numa fase em que se fala muito sobre inclusão social, mas pouco se vê.
Fiquei muito contente, quando me dirigi ao shopping e numa loja o senhor que estava a registar na caixa, não só era negro, o que desbrava logo o caminho das outras cores que não os caucasianos, tinha já alguma idade, o dá alguns retoques a "a partir dos quarenta esquece seres vendedor e vires para o balcão; os quarenta são o desemprego de muitas mulheres por atingirem a idade daquilo que a maquilhagem não tapa", e tinha um défice neurológico, não sei se cognitivo ou não. Trabalhava muito lentamente, mas fez tudo o que os colegas faziam, picou o preço, dobrou o produto, com alguma dificuldade mas fê-lo, perguntou se precisávamos de NIF e de saco. Concluiu a venda de forma cordial e educada, e assim passou ao cliente seguinte
Fiquei encantada por estarem a fazer a inclusão social de pessoas como este senhor, que ,embora com limitações, pode trabalhar e com mestria, com calma, com ponderação. Para ele uma venda é um ato heroico porque não sabe se os dedos vão paralisar ou não. O seu sorriso dava-lhe um ar de felicidade. De tantas desgraças que passou na vida, tinha, ao menos agora, um pouco de paz. Ganhava o seu ordenado por mérito e por justiça social.
Devia ser obrigatório incluir pessoas com diferenças da população geral. Porque elas também são pessoas, também sentem, e muitas vezes apenas por serem um pouco mais lentas são postas de lado, como se lhes faltasse competência, formação ou uma imagem agradável. Facto é que temos que passar pelo escrutínio das chefias até que elas nos digam "não se esqueça de vir maquilhada".
Devíamos estar a viver a cultura da inclusão. Não apenas com um funcionário que nos atendeu numa loja, mas em vagas que existem em tantas lojas e lugares por aí a precisar de serem preenchidas.
Pensem nisso senhores políticos.
Bárbara de Sotto e Freire
