A minha trajetória tem sido moldada por ausências profundas e por combates silenciosos. Cresci com a marca do abandono paterno e sob o olhar de uma mãe que, embora lutasse como uma supermulher, não conseguia projetar grandes horizontes para o meu futuro. Ao mesmo tempo, vi o meu irmão afastar-se do nosso núcleo, escolhendo a corporação dos bombeiros como a sua verdadeira família.
Durante mais de quatro décadas, resguardei-me na crença de que a minha mãe seria o meu porto seguro, o meu refúgio inabalável. Contudo, aos 45 anos de vida, fui confrontada com uma realidade dolorosa: a existência de dois pesos e duas medidas no seu amor e dedicação. Há alguns meses, ao pedir-lhe um simples auxílio para passar lençóis a ferro — uma tarefa com a qual ironicamente não me consigo entender —, ela cedeu, mas não sem antes verbalizar o peso da sua tendinite e o desgaste dos seus ossos. Em contrapartida, assisto agora, em silêncio, ao tratar de cestos transbordantes de roupa, sem uma única queixa de cansaço. Sentir esta disparidade provoca-me uma revolta legítima; no entanto, vejo-me na contingência de assistir a tudo de braços cruzados. Para não alimentar discórdias e preservar a paz familiar, emudeço a minha voz e limito-me a ser espetadora deste filme injusto que se desenrola diante dos meus olhos.
Reconheço que o passado também guarda as minhas próprias falhas. Houve momentos em que não procedi da melhor forma com a minha mãe. Noutros, ela considerou que a minha sanidade exigia um internamento. Assim se passaram três longos e dolorosos anos da minha vida, num processo penoso de recuperação psicossomática e reintegração social. No meio de tanta gente que circulava por aquela instituição, o que eu realmente habitava era uma solidão avassaladora.
Foi nesse deserto emocional que o Renato se revelou. Sendo apenas um amigo na altura, transformou-se no meu farol, visitando-me piamente todos os domingos. Até que, a 11 de outubro de 2015, ganhei a coragem de o questionar sobre o nosso rumo. Com um misto de timidez e esperança, ele perguntou-me: "Namoramos?". O meu "sim" selou o início da nossa história.
Desde então, temos caminhado lado a lado e, este ano, paira sobre nós o plano de trocar alianças, oficializando o nosso compromisso. No entanto, a proximidade deste passo definitivo fez desabar sobre mim uma avalanche de incertezas. Sinto uma saudade imensa da paixão vibrante do nosso início, daquela chama que nos unia e que, com o passar do tempo, parece ter esmorecido. Hoje, fomos engolidos por uma rotina que nos transformou muito mais em companheiros e grandes amigos do que propriamente em namorados. Essa apatia mútua assusta-me e traz-me um medo devastador: o medo profundo de o magoar, a ele, que sempre foi o meu apoio mais sincero.
Enfrento agora um trabalho interior complexo e doloroso. Sei que preciso de redescobrir o espaço que o Renato ocupou no meu peito durante tantos anos. É um esforço duplo: por um lado, procuro desesperadamente reacender a chama da paixão perdida; por outro, tento pacificar o meu coração para aceitar e valorizar o amor nesta sua nova forma, mais calma, madura e serena.
Apesar da tempestade que hoje me habita, recuso-me a perder a esperança. Acredito convictamente que a vida é feita de ciclos. Sei que preciso de atravessar este deserto de dúvidas, de silêncios e de observação do outro para que, finalmente, possa emergir num novo ciclo de abundância, de verdadeiro amor e de profunda empatia.
Eu sei que te amo, Renato.
Bárbara de Sotto e Freire

Sem comentários:
Enviar um comentário