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quarta-feira, 12 de agosto de 2009

Ás vezes

Ás vezes choramos sem razão. Ás vezes choramos com uma dor de alma profunda, como se a nossa alma só conhecesse um lado.
Ás vezes os dias correm mal.
Ás vezes sentimo-nos perdidos, sozinhos, nostálgicos.
Não suportamos ver ninguém, muito menos a nossa imagem no espelho.
Ás vezes não nos apercebemos do quanto as pessoas nos ferem, nos magoam, nos decepcionam. Quando muito, não nos damos conta, do quanto nos podemos decepcionar a nós mesmos.
Ás vezes os dias passam rápido.
Ás vezes não tomamos as decisões certas, no tempo devido.
Não amamos na mesma medida.
Ás vezes amamos tanto, que ficamos vazios.
Ás vezes sentimos que a nossa vida é feita apenas de despedidas, sem ter sido possível, alguma vez, gravar nos olhos da alma, os olhos de quem vai.
Ás vezes não gozamos o momento, não sorrimos genuinamente.
Ás vezes queremos mimo.
Ás vezes nem a carapaça da indiferença nos permite resistir aos mais afiados aguilhões.
Ás vezes é mais fácil enfiar a cabeça na areia, porque temos medo do desconhecido, temos medo de falhar. Falhar com os nossos sonhos e promessas de outrora. Ás vezes somos a nossa própria desilusão.
Ás vezes tornámo-nos os melhores. Ou os piores.
Ás vezes achamos que a vida só nos coloca obstáculos.
Ás vezes não somos suficientemente inocentes para acreditar na vida, e somos levianamente perspicazes levados a acreditar que alguém, um dia, nos poderá entender.
Bárbara de Sotto e Freire

terça-feira, 7 de abril de 2009

Há dias assim

"Há dias
Em que não cabes na pele
Com que andas
Parece comprada em segunda mão
Um pouco curta nas mangas
Há dias
Em que cada passo e mais um
Castigo de Deus
Parece
Que os sapatos que vês
Enfiados nos pés
Nem sequer são os teus
À noite voltas a casa
Ao porto seguro
E p'ra sarar mais esta corrida
Vais lamber a ferida
Para o canto mais escuro
Já vi
Há dias em que tu
não cabes em ti
Avança
Na cara desse torpor
Que te perde e te seduz
A espada como a um
Matador
Com o gesto maior
Do seu peito
Andaluz
Avança
Com a raiva que sentes
Quando rangem os dentes
Ao peso da cruz
Enfim,
Há dias em que eu
Também estou assim
Parece que pagamos os
Pecados deste mundo
Amarrados aos remos de um
Barco que está no fundo."
Composição: Manuel Paulo, João Monge
Ala dos namorados
Bárbara de Sotto e Freire

domingo, 8 de março de 2009

O primeiro dia do resto da tua vida

«A princípio é simples anda-se sozinho
passa-se nas ruas bem devagarinho
está-se no silêncio e no borborinho
Embebe-se as certezas num copo de vinho
vem-nos à memória uma frase batida
hoje é o primeiro dia do resto da tua vida
hoje é o primeiro dia do esto da tua vida
Pouco a pouco o passo faz-se vagabundo
dá-se a volta ao medo dá-se a volta ao mundo
diz-se do passado que está moribundo
bebe-se o alento num copo sem fundo
e vem-nos à memória uma frase batida
hoje é o primeiro dia do resto da tua vida
hoje é o primeiro dia do resto da tua vida
E é então que amigos nos oferecem leito
entra-se cansado e sai-se refeito
luta-se por tudo o que leva a peito
bebe-se come-se e alguém nos diz bom proveito
e vem-nos à memória uma frase batida
hoje é o primeiro dia do resto da tua vida
hoje é o primeiro dia do resto da tua vida
Depois vem cansaços e o corpo fraqueja
molha-se para dentro e já pouco sobeja
pede-se o descanso por curto que seja
apagam-se dúvidas num mar de cerveja
e vem-nos à memória uma frase batida
hoje é o primeiro dia do resto da tua vida
hoje é o primeiro dia do resto da tua vida
Enfim duma escolha faz-se um desafio
enfrenta-se a vida de fio a pavio
navega-se sem mar sem vela ou navio
bebe-se a coragem até dum copo vazio
e vem-nos à memória uma frase batida
hoje é o primeiro dia do resto da tua vida
hoje é o primeiro dia do resto da tua vida
E entretanto o tempo fez cinza da brasa
e outra maré cheia virá da maré vaza
nasce um novo dia e no braço outra asa
brinda-se aos amores com o vinho da casa
e vem-nos à memória uma frase batida
hoje é o primeiro dia do resto da tua vida
hoje é o primeiro dia do resto da tua vida»
Sérgio Godinho

Bárbara de Sotto e Freire

segunda-feira, 2 de março de 2009

Tudo o que sou não é mais que abismo



«Tudo o que sou não é mais do que abismo
Em que uma vaga luz
Com que sei que sou eu, e nisto cismo,
Obscura me conduz.

Um intervalo entre não-ser e ser
Feito de eu ter lugar
Como o pó, que se vê o vento erguer,
Vive de ele o mostrar.»

Fernando Pessoa


Bárbara de Sotto e Freire

sábado, 7 de fevereiro de 2009

Ainda não há?!

Há dias em que precisava de uns comprimidinhos da paciência...
Bárbara de Sotto e Freire

sexta-feira, 23 de janeiro de 2009

Há dias assim


Bárbara de Sotto e Freire

quinta-feira, 22 de janeiro de 2009

Na solidão dos dias que passam

Na solidão dos dias que passam
e no vento que sopra
pelos freios das janelas
e gela a alma doentia
que dói amargurada
sinto o perfume de um dia aqui e outrora
de nevoeiro espesso e cortante

Na permene existência do ser
e no brilho de uns olhos ofuscados
pela tristeza dos sonhos traídos
e desilusão de viver
a morte sentida

Esta chuva miúda e mesquinha
refresca-me o espirito
e atraiçoa-me para lá do que possa existir

O cheiro dos dias de nevoeiro
não passam de uma laceração
de quem é sádico
de quem é mórbido
de quem sabe o que custa viver
a vida saboreando a morte
fingindo brilhar num buraco negro

e os dias passam
com o vento
o cheiro do nevoeiro
a chuva miudinha
e a cor que os pinta
é o espantar da paz
como o monstro do SER
que aprisiona a vontade

aquela de ter a coragem
de dar um novo passo
e de esquecer
a tristeza
na solidão dos dias que passam
Bárbara de Sotto e Freire

quarta-feira, 21 de janeiro de 2009

Pontapés

Desculpem, mas tenho de dizer isto. Hoje o dia foi... enfim, difícil...


«Há sempre alguém pronto a criticar, a deitar abaixo tudo e todos, mesmo que ninguém lhes faça sombra. Sentem como que prazer em fazê-lo.

Quem de nós não sentiu já na carne o aguilhão da crítica?Um aguilhão que pode inibir gestos e silenciar palavras?
Já lá vão uns anos uma mão amiga meteu debaixo da minha porta um daqueles posters feitos de uma espécie de tecido fino, onde se desenham e escrevem simpáticas frases (...).Conservo aquele poster atrás da porta da minha entrada. Visível para quem sai. Está ali como sinal de afecto, mas também como conselheiro. Diz:


ANIMA-TE! ...Se levares pontapés no traseiro é sinal que estás à frente!

Uma frase que resume aquilo que podia ser dito assim: não deixes que as críticas e as palavras maldosas te afastem dos objectivos a que te propuseste, tu és superior. Uma frase de alguma forma parecida com o ditado: "Só se atiram pedras ás árvores que dão frutos".

Nem sempre é assim. Seja como for, nós sabemos como somos vulneráveis ás críticas, ás observações sarcásticas e aos comentários mesquinhos dos outros. Algumas frases parecem pingar inveja, outras não passam de meras brincadeiras. Seja como for, podem ser o bastante para estragar o dia de alguém.(...)

A este propósito ocorre-me uma história:
Um dia Buda foi verbalmente atacado por uma homem. Pacientemente, ouviu todas as acusações que o homem tinha a fazer-lhe. Depois, e com uma serenidade funda no olhar e na voz, perguntou:
- Ouve, se alguém recusar um presente, a quem é que este pertenceria?
- Pois, a quem o ofereceu, respondeu o homem desconfiado.
- Muito bem - dise-lhe o Buda - não aceito o teu insulto.»


Henrique Manuel - Ele sabe que somos assim
Bárbara de Sotto e Freire

segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

Páginas brancas

Há dias em que não me apetece viver. Apetece-me ficar enroscada, no meio de um cobertor fofo, qual gata borralheira, e estar ali. Vegetar, talvez. Não me quero mostrar esta monotonia, nem aos outros o aborrecimento que sou para mim mesma. Não pretendo ser eu, nem o meu outro eu, nem mais ninguém. Não quero pensar, nem escrever, nem tão pouco assistir a um espectáculo, pouco plausível, da vida. Da minha? Talvez.
Não sei se tenho amor para dar, porque desta vida não faço contas ao que levo. Cada dia é uma página branca em que vou escrevendo, por vezes mal, riscando alguns desenhos místicos, e ... e mais nada. Cada dia é apenas isso: uma página branca.
De facto quando não podemos culpar o destino, culpa-mo-nos a nós. Quando não podemos escolher viver, nem morrer, vamos andando, para onde a vida nos levar. Quando não podemos ser livres, somos livres de pensar. E de escrever. Num livro, diferente desse. O da vida.
E depois, com uma serenidade que atropela os mortais comuns, as páginas brancas em que nós veemente acreditamos tornam-se reais, e vivemos na realidade presos por um fio de sonho e outro de ilusão. Torna-mo-nos seres cheios de energia e vitalidade.
Há dias em que já não me apetece estar enroscada, qual letargia da metamorfose, mas antes preparada para enfrentar a aspereza destes dias que se atropelam, destas páginas brancas soltas, e em que, muitas vezes, não me apetece viver.
Bárbara de Sotto e Freire

sexta-feira, 12 de dezembro de 2008

Porquê?



"A causa da derrota não se encontra no obstáculo ou no rigor das circunstâncias; está no retrocesso, na determinação, e na desistência da própria pessoa.

Se falasse em dificuldades, tudo era realmente difícil. Se falasse em impossibilidades, tudo era realmente impossível.

Quando o ser humano regride na sua decisão, os problemas que se erguem na sua frente acabam parecendo maiores e confundem-no como uma realidade imutável.

A derrota encontra-se exatamente nisso."



Daisaku Ikeda



Bárbara de Sotto e Freire