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sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

A vida num sonho

Quem me quiser há-de saber as concha
sa cantiga dos búzios e do mar.
Quem me quiser há-de saber as ondas
e a verde tentação de naufragar.

Quem me quiser há-de saber as fontes,
a laranjeira em flor, a cor do feno,
a saudade lilás que há nos poentes,
o cheiro de maçãs que há no inverno.

Quem me quiser há-de saber a chuva
que põe colares de pérolas nos ombros
há-de saber os beijos e as uvas
há-de saber as asas e os pombos.

Quem me quiser há-de saber os medos
que passam nos abismos infinitos
a nudez clamorosa dos meus dedos
o salmo penitente dos meus gritos.

Quem me quiser há-de saber a espuma
em que sou turbilhão, subitamente -
Ou então não saber coisa nenhuma
e embalar-me ao peito, simplesmente.
Rosa Lobato de Faria
[20/Abril/1932 - 2/Fevereiro/2010]
Bárbara de Sotto e Freire

quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

À Beleza

«Não tens corpo, nem pátria, nem família,
Não te curvas ao jugo dos tiranos.
Não tens preço na terra dos humanos,
Nem o tempo te rói.
És a essência dos anos,
O que vem e o que foi.
És a carne dos deuses,
O sorriso das pedras,
E a candura do instinto.
És aquele alimento
De quem, farto de pão, anda faminto.
És a graça da vida em toda a parte,
Ou em arte,
Ou em simples verdade.
És o cravo vermelho,
Ou a moça no espelho,
Que depois de te ver se persuade.
És um verso perfeito
Que traz consigo a força do que diz.
És o jeito
Que tem, antes de mestre, o aprendiz.
És a beleza, enfim.
És o teu nome.
Um milagre, uma luz, uma harmonia,
Uma linha sem traço...
Mas sem corpo, sem pátria e sem família,
Tudo repousa em paz no teu regaço.»
Miguel Torga, in 'Odes'
Bárbara de Sotto e Freire

quarta-feira, 9 de setembro de 2009

Poema do silêncio

«Sim, foi por mim que gritei.
Declamei,
Atirei frases em volta.
Cego de angústia e de revolta.
Foi em meu nome que fiz,
A carvão, a sangue, a giz,
Sátiras e epigramas nas paredes
Que não vi serem necessárias e vós vedes.
Foi quando compreendi
Que nada me dariam do infinito que pedi,
-Que ergui mais alto o meu grito
E pedi mais infinito!
Eu, o meu eu rico de baixas e grandezas,
Eis a razão das épi trági-cómicas empresas
Que, sem rumo,
Levantei com sarcasmo, sonho, fumo...
O que buscava
Era, como qualquer, ter o que desejava.
Febres de Mais. ânsias de Altura e Abismo,
Tinham raízes banalíssimas de egoísmo.
Que só por me ser vedado
Sair deste meu ser formal e condenado,
Erigi contra os céus o meu imenso Engano
De tentar o ultra-humano, eu que sou tão humano!
Senhor meu Deus em que não creio!
Nu a teus pés, abro o meu seio
Procurei fugir de mim,
Mas sei que sou meu exclusivo fim.
Sofro, assim, pelo que sou,
Sofro por este chão que aos pés se me pegou,
Sofro por não poder fugir.
Sofro por ter prazer em me acusar e me exibir!
Senhor meu Deus em que não creio, porque és minha criação!
(Deus, para mim, sou eu chegado à perfeição...)
Senhor dá-me o poder de estar calado,
Quieto, maniatado, iluminado.
Se os gestos e as palavras que sonhei,
Nunca os usei nem usarei,
Se nada do que levo a efeito vale,
Que eu me não mova! que eu não fale!
Ah! também sei que, trabalhando só por mim,
Era por um de nós. E assim,
Neste meu vão assalto a nem sei que felicidade,
Lutava um homem pela humanidade.
Mas o meu sonho megalómano é maior
Do que a própria imensa dor
De compreender como é egoísta
A minha máxima conquista...
Senhor! que nunca mais meus versos ávidos e impuros
Me rasguem! e meus lábios cerrarão como dois muros,
E o meu Silêncio, como incenso, atingir-te-á,
E sobre mim de novo descerá...
Sim, descerá da tua mão compadecida,
Meu Deus em que não creio! e porá fim à minha vida.
E uma terra sem flor e uma pedra sem nome
Saciarão a minha fome.»
José Régio
Bárbara de Sotto e Freire

quinta-feira, 25 de junho de 2009

Poema

«A minha vida é o mar o Abril a rua
O meu interior é uma atenção voltada para fora
O meu viver escuta
A frase que de coisa em coisa silabada
Grava no espaço e no tempo a sua escrita
Não trago Deus em mim mas no mundo o procuro
Sabendo que o real o mostrará
Não tenho explicações
Olho e confronto
E por método é nu meu pensamento
A terra o sol o vento o mar
São a minha biografia e são meu rosto
Por isso não me peçam cartão de identidade
Pois nenhum outro senão o mundo tenho
Não me peçam opiniões nem entrevistas
Não me perguntem datas nem moradas
De tudo quanto vejo me acrescento
E a hora da minha morte aflora lentamente
Cada dia preparada»
Sophia de Mello Breyner Andresen

Bárbara de Sotto e Freire

quinta-feira, 18 de junho de 2009

Princesa Desalento

«Minh'alma é a Princesa Desalento,
Como um Poeta lhe chamou, um dia.
É revoltada, trágica, sombria,
Como galopes infernais de vento!

É frágil como o sonho dum momento,
Soturna como preces d'agonia,
Vive do riso duma boca fria!
Minh'alma é a Princesa Desalento…

Altas horas da noite ela vagueia…
E ao luar suavíssimo, que anseia,
Põe-se a falar de tanta coisa morta!

O luar ouve a minh'alma, ajoelhado,
E vai traçar, fantástico e gelado,
A sombra duma cruz à tua porta…»

Florbela Espanca
«Livro de Soror Saudade», in «Poesia Completa»
Retirado de:
Bárbara de Sotto e Freire

terça-feira, 12 de maio de 2009

É proibido

«É proibido chorar sem aprender,
Levantar-se um dia sem saber o que fazer
Ter medo das tuas lembranças.
É proibido não rir dos problemas
Não lutar pelo que se quer,
Abandonar tudo por medo,
Não transformar sonhos em realidade.
É proibido não demonstrar amor
Fazer com que alguém pague pelas tuas dúvidas e mau-humor.
É proibido deixar os amigos
Não tentar compreender o que viveram juntos
Chamá-los somente quando necessitas deles.
É proibido não seres tu mesmo diante das pessoas,
Fingir que elas não te importam,
Ser gentil só para que se lembrem de ti,
Esquecer aqueles que te amam.
É proibido não fazer as coisas por si mesmo (...)
Ter medo da vida e de seus compromissos,
Não viver cada dia como se fosse um último suspiro.
É proibido sentir saudades de alguém sem se alegrar,
Esquecer seus olhos, seu sorriso, só porque os seus caminhos se desencontraram,
Esquecer seu passado e pagá-lo com seu presente.
É proibido não tentar compreender as pessoas,
Pensar que as vidas deles valem mais que a tua,
Não saber que cada um tem seu caminho e sua sorte.
É proibido não criares a tua história (...)
Não ter um momento para quem necessita de ti,
Não compreenderes que o que a vida te dá, também te tira.
É proibido não buscar a felicidade,
Não viveres a tua vida com uma atitude positiva,
Não pensar que podemos ser melhores,
Não sentires que sem ti este mundo não seria igual.»
Pablo Neruda, adaptado

Bárbara de Sotto e Freire

O Mostrengo

«O mostrengo que está no fim do mar
Na noite de breu ergueu-se a voar;
À roda da nau voou três vezes,
Voou três vezes a chiar,
E disse: "Quem é que ousou entrar
Nas minhas cavernas que não desvendo
Meus tectos negros do fim do mundo?"
E o homem do leme disse, tremendo:
"El-Rei D. João Segundo!"
"De quem são as velas onde me roço?
De quem as quilhas que vejo e ouço?"
Disse o mostrengo e rodou três vezes,
Três vezes rodou imundo e grosso.
"Quem vem poder o que só eu posso,
Que moro onde nunca ninguém me visse
E escorro os medos do mar sem fundo?"
E o homem do leme tremeu, e disse:
"El-Rei D. João Segundo!"
Tês vezes do leme as mãos ergueu,
Tês vezes ao leme as repreendeu,
E disse no fim de tremer três vezes:
"Aqui ao leme sou mais do que eu:
Sou um povo que quer o mar que é teu;
E mais que o mostengo que minh'alma teme
E roda nas trevas da fim do mundo
Manda a vontade que me ata ao leme,
De El-Rei D. João Segundo!"»
Fernando Pessoa
Mensagem, 1934
Bárbara de Sotto e Freire

segunda-feira, 11 de maio de 2009

Fundo do mar





«No fundo do mar há brancos pavores,
Onde as plantas são animais
E os animais são flores.

Mundo silencioso que não atinge
A agitação das ondas.
Abrem-se rindo conchas redondas,
Baloiça o cavalo-marinho.
Um polvo avança
No desalinho
Dos seus mil braços,
Uma flor dança,
Sem ruído vibram os espaços.

Sobre a areia o tempo poisa
Leve como um lenço.

Mas por mais bela que seja cada coisa
Tem um monstro em si suspenso.»



Sophia de Mello Breyner Andresen
Obra Poética I





Bárbara de Sotto e Freire

sexta-feira, 1 de maio de 2009

Se cada dia cai

"Se cada dia cai, dentro de cada noite,
há um poço
onde a claridade está presa.
Há que sentar-se na beira
do poço da sombra
e pescar luz caída
com paciência."
Pablo Neruda (Últimos Poemas)
Bárbara de Sotto e Freire

terça-feira, 31 de março de 2009

Segue o teu destino


"Segue o teu destino,
Rega as tuas plantas,
Ama as tuas rosas.
O resto é a sombra
De árvores alheias.
A realidade
Sempre é mais ou menos
Do que nós queremos.
Só nós somos sempre
Iguais a nós-próprios.
Suave é viver só.
Grande e nobre é sempre
Viver simplesmente.
Deixa a dor nas aras
Como ex-voto aos deuses.
Vê de longe a vida.
Nunca a interrogues.
Ela nada pode
Dizer-te.
A resposta
Está além dos deuses.
Mas serenamente
Imita o Olimpo
No teu coração.
Os deuses são deuses
Porque não se pensam."
Ricardo Reis
1-7-1916
Bárbara de Sotto e Freire

domingo, 29 de março de 2009

O menino de sua mãe

«No plaino abandonado
Que a morna brisa aquece,
De balas trespassado
-Duas, de lado a lado-,
Jaz morto, e arrefece.

Raia-lhe a farda o sangue.
De braços estendidos,
Alvo, louro, exangue,
Fita com olhar langue
E cego os céus perdidos.

Tão jovem! Que jovem era!
(agora que idade tem?)
Filho único, a mãe lhe dera
Um nome e o mantivera:
«O menino de sua mãe.»

Caiu-lhe da algibeira
A cigarreira breve.
Dera-lhe a mãe. Está inteira
E boa a cigarreira.
Ele é que já não serve.

De outra algibeira, alada
Ponta a roçar o solo,
A brancura embainhada
De um lenço… deu-lho a criada
Velha que o trouxe ao colo.

Lá longe, em casa, há a prece:
“Que volte cedo, e bem!”
(Malhas que o Império tece!)
Jaz morto e apodrece
O menino da sua mãe»

Fernando Pessoa
Bárbara de Sotto e Freire

quinta-feira, 26 de março de 2009

A veia do poeta

Esta foi a minha música preferida durante muitos anos. O CD continua na estante, não sei como mas não está riscado (!!!), e a letra ainda continua a borboletar na minha cabeça de quando em vez. Lembro-me de estar a estudar anatomia ao som desta música (porque será?!). Lembro-me de ir para a praia, phones nos ouvidos para não ouvir a criançada toda a tarde, e lá estava a música... Ainda agora, quando não quero ouvir a realidade, os corpos frenéticos de um lado para o outro, quando simplesmente me tento desligar do mundo, aí está esta música fantástica, onde me revejo.


"Cansado do movimento
Que percorre a linha recta
Fui ficando mais atento
Ao voo da borboleta
Fui subindo em espiral
Declarando-me estafeta
Entre o corpo do real
E a veia do poeta

Mas ela não se detecta
À vista desarmada
E o sangue que lá corre
Em torrente delicada
É a lágrima perpétua
Sai da ponta da caneta
Vai ao fim da via láctea
E cai no fundo da gaveta
Ai de quem nunca guardou
Um pouco da sua alma
Numa folha secreta
Ai de quem nunca guardou
Um pouco da sua alma
No fundo duma gaveta
Ai de quem nunca injectou
Um pouco da sua mágoa
Na veia do poeta"

A veia do poeta
Rui Veloso



Bárbara de Sotto e Freire

segunda-feira, 2 de março de 2009

Tudo o que sou não é mais que abismo



«Tudo o que sou não é mais do que abismo
Em que uma vaga luz
Com que sei que sou eu, e nisto cismo,
Obscura me conduz.

Um intervalo entre não-ser e ser
Feito de eu ter lugar
Como o pó, que se vê o vento erguer,
Vive de ele o mostrar.»

Fernando Pessoa


Bárbara de Sotto e Freire

quinta-feira, 22 de janeiro de 2009

Na solidão dos dias que passam

Na solidão dos dias que passam
e no vento que sopra
pelos freios das janelas
e gela a alma doentia
que dói amargurada
sinto o perfume de um dia aqui e outrora
de nevoeiro espesso e cortante

Na permene existência do ser
e no brilho de uns olhos ofuscados
pela tristeza dos sonhos traídos
e desilusão de viver
a morte sentida

Esta chuva miúda e mesquinha
refresca-me o espirito
e atraiçoa-me para lá do que possa existir

O cheiro dos dias de nevoeiro
não passam de uma laceração
de quem é sádico
de quem é mórbido
de quem sabe o que custa viver
a vida saboreando a morte
fingindo brilhar num buraco negro

e os dias passam
com o vento
o cheiro do nevoeiro
a chuva miudinha
e a cor que os pinta
é o espantar da paz
como o monstro do SER
que aprisiona a vontade

aquela de ter a coragem
de dar um novo passo
e de esquecer
a tristeza
na solidão dos dias que passam
Bárbara de Sotto e Freire

domingo, 28 de dezembro de 2008

Who am I ?!

"(...)
Nada, senão o instante, me conhece.
Minha mesma lembrança é nada, e sinto
Que quem sou e quem fui
São sonhos diferentes."

Ricardo Reis

Bárbara de Sotto e Freire

quarta-feira, 3 de dezembro de 2008

Pedra Filosofal

"Eles não sabem que o sonho
é uma constante da vida
tão concreta e definida
como outra coisa qualquer,
como esta pedra cinzenta
em que me sento e descanso,
como este ribeiro manso
em serenos sobressaltos,
como estes pinheiros altos
que em verde e oiro se agitam,
como estas aves que gritam
em bebedeiras de azul.
Eles não sabem que o sonho
é vinho, é espuma, é fermento,
bichinho álacre e sedento,
de focinho pontiagudo,
que fossa através de tudo
num perpétuo movimento.
Eles não sabem que o sonho
é tela, é cor, é pincel,
base, fuste, capitel,
arco em ogiva, vitral,
pináculo de catedral,
contraponto, sinfonia,
máscara grega, magia,
que é retorta de alquimista,
mapa do mundo distante,
rosa-dos-ventos, Infante,
caravela quinhentista,
que é Cabo da Boa Esperança,
ouro, canela, marfim,
florete de espadachim,
bastidor, passo de dança,
Colombina e Arlequim,
passarola voadora,
pára-raios, locomotiva,
barco de proa festiva,
alto-forno, geradora,
cisão do átomo, radar,
ultra-som, televisão,
desembarque em foguetão
na superfície lunar.
Eles não sabem, nem sonham,
que o sonho comanda a vida.
Que sempre que um homem sonha
o mundo pula e avança
como bola colorida
entre as mãos de uma criança."
António Gedeão, in 'Movimento Perpétuo'
Bárbara de Sotto e Freire

domingo, 30 de novembro de 2008

Quando estou só reconheço

"Quando estou só reconheço
Se por momentos me esqueço
Que existo entre outros que são
Como eu sós, salvo que estão
Alheados desde o começo.
E se sinto quanto estou
Verdadeiramente só,
Sinto-me livre mas triste.
Vou livre para onde vou,
Mas onde vou nada existe.
Creio contudo que a vida
Devidamente entendida
É toda assim, toda assim.
Por isso passo por mim
Como por cousa esquecida."
Fernando Pessoa

Bárbara de Sotto e Freire

quinta-feira, 13 de novembro de 2008

Ser

Vagueio
por entre o Vazio que me preenche
pela solidão de que me sou
e sinto

Vagueio
por entre o olhar indolente
dos confrontos injustos
da solidão de mim comigo

do SER de que sou Vazio
do Vazio que me enche

_ _ _ _ Envolvendo
_ _ _ _ _ _ _ _ _ _ Esquecendo
Levando consigo
Só o (meu) Vazio

Vagueio
solitariamente por este beco
por este mundo sem céu
_ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ sem tecto
preenchido do Nada
que é a solidão
E o não
da mão que não se dá
do abraço que não se sente
do amor que não se entende
do olhar
que Nada compreende
o SER errante que sou

que ninguém tende a ser
_ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ o SER Vazio

Vagueio
Sentida a brisa leve soltada pelo vento
que sem rumo ou destino amacia
que me guia o alento
que como fado acaricia a alma
de quem segue solitária
pelo Vazio

Vagueio
E atiro-me desta falésia dourada
Por este precipício
Drogada
E pertenço ao Infinito

ao Infinito do Nada

Mas espreita a aurora
e os raios quentes do sol despertam-me
da droga maravilhosa
que é estar
Livre do Nada
_ _ _ _ _ _ _ _Cheia de Infinito
_ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _Saciada de ilusão
que não acaba

Do sonho
Do prazer de SER Vazio
De estar no Infinito

Abandono-me
(e) então vagueio
perseguida pelo Vazio
usada pela solidão

e no silêncio do Nada
vou ousando
_ _ _ _ _ _ _ ser Drogada
e atiro-me
para sempre

da falésia
para o Infinito
_ _ _ _ _ _ _ _ do (SER) Nada



Bárbara de Sotto e Freire

sábado, 25 de outubro de 2008

Não é preciso

«Não é preciso assobio
para estar só,
para viver a escuras.
Em plena multidão, em pleno céu,
nós nos lembramos de quem nós éramos,
ao íntimo, ao desnudo,
ao único que sabe como crescem suas unhas,
que sabe como se faz seu silêncio
e suas pobres palavras.
Há Pedro para todos,
luzes, satisfatórias Berenices,
mas, para dentro,
por debaixo da idade e vestimenta,
ainda não temos nome,
somos de outra maneira.
Não só para dormir os olhos se fecharam
mas sim para não ver o mesmo céu.
Nós cansamos de súbito
e como se tocassem no campanário
para entrar ao colégio,
regressamos à pétala escondida,
para o osso, para a raiz semi-secreta,
e ali, súbito, somos,
somos aquele puro e não lembrado,
somos o verdadeiro
entre os quatro muros de nossa única pele,
entre as duas espadas de viver e de morrer.»

Pablo Neruda
Bárbara de Sotto e Freire

sexta-feira, 3 de outubro de 2008

Estado de alma

Destruimos sempre aquilo que mais amámos

em campo aberto, ou numa emboscada;
alguns com a leveza do carinho;
outros com a dureza da palavra;
os covardes destroem com um beijo;
os valentes destroem com a espada.


Oscar Wilde


Bárbara de Sotto e Freire