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sábado, 13 de dezembro de 2014

sábado, 16 de junho de 2012

Cari amici...

Cari amici,

Já tinha saudades da viagem solitária que a escrita me proporciona. Saudades dos momentos de reflexão e desabafo. Ao longo destes meses em que não escrevi senti falta da caneta e do toque do papel. Senti a falta do som das teclas que outrora os meus dedos  dedilhavam tão ou mais rápido que o meu pensamento. Durante esta ausência escrevi textos no meu pensamento mas não os conseguia transpor para um plano visível e palpável e isso deixou-me frustrada muitas vezes. Outras vezes quase me obriguei a escrever, mas acabei por apagar as palavras que saíram dos meus dedos, que saíam do lado mais racional desta minha cabeça complicada. Outras vezes fiquei a olhar para o ecrã branco e pensei "o que se passa comigo?". Vezes havia em que queria escrever, mas por razões profissionais, ou por outras obrigações, não o podia fazer. Mas ao longo da última semana, foi como se a necessidade de escrever fosse crescendo e as ideias fossem brotando, e enfim, cá estou eu, a escrever, furiosamente, a teclar, cheia de entusiasmo, e sorrindo, contra um ecrã que se enche, repleto de palavras, de sentimentos e emoções, de histórias.
In definitiva...
Ao longo destes meses de ausência a vida não foi particularmente afável comigo. Aprendi que as pessoas são inconstantes, encontrei mais pessoas escorregadias do que aquelas que esperei encontrar ao longo de toda a minha existência, aprendi que a vida não é preto no branco (acho que ainda não aprendi, mas é uma constatação cada vez mais frequente), e que há pessoas que merecem apenas um cartão de saída da minha vida sem qualquer V de volta. Ao longo destes meses despedi-me de muitas pessoas. Sem mais nem menos, as pessoas vão. Morrem, vão quando menos se espera, mudam de emprego, mudam de local de residência, mudam de local de trabalho. As pessoas que consideramos serem fundamentais para as nossas vidas terem algum equilíbrio vão. Aquelas pessoas a quem nós damos tudo para ficarem, a quem nós alimentamos a presença, a quem nunca daríamos razões para nos darem um bilhete de saída, ou a quem nunca daríamos um bilhete apenas de ida. A vida é controversa e amarga.
Non capisco!
Neste espaço de tempo foi Outono, foi Inverno, é Primavera, e quase Verão.
Contudo o tempo permanece incerto.
Dediquei-me a aprender as plantas, a ciência do seu uso. Fiz sacrifícios imensos para me tornar uma melhor profissional. Sacrifiquei horas dos meus dias e dias dos meus anos para ter as minhas tarefas laborais prontas a tempo e horas, com o mínimo de lapsos possíveis, com o maior brio e dedicação.
Até agora sinto uma coisa estranha... Trabalhamos para ser reconhecidos?
Naturalmente.
Ao longo destes meses, fiquei mais velha. Tenho brancas. Tenho rugas, olho para o espelho e vejo-me a envelhecer. Só me pergunto e me questiono acerca do que conquistei até hoje, até agora.
Pergunto-me se conquistei corações, se conquistei sorrisos, se serei importante para alguém ou para muita gente, se deixarei saudades. Pergunto-me até que ponto fui importante para o mundo.
Apaixonei-me e desapaixonei-me. Fiquei com raiva e depois fiz as pazes comigo mesma. Hoje acho que nem sequer me apaixonei. Raios partam o coração e as leis da atração ou lá o que isso é.

E foi assim, um devaneio de emoções, um afogar no trabalho para não ter que pensar no resto. Um resto que por vezes não há. Uma falha emocional grave. Foi assim. Desviar o emocional para o racional, para esquecer o que falta.
Que faltas lá tu no almoço de Domingo, que faltas lá tu ao telefone, que faltas lá tu com o teu sorriso, que faltas lá tu, qual pit bull, que faltam lá todos vocês.
Faltam lá todos vocês. Por isso estou imersa em mim.

Mi manca la tua presenza.
Voglio Dom.

Bárbara de Sotto e Freire

quarta-feira, 15 de julho de 2009

A gaveta do escritor

«Quando não escrevia (ou seja, quando apenas debitava letras em papéis, algumas delas formando palavras e consequentes frases, mas sem nenhuma intenção de contar histórias, como responder a uma carta, pois sou do tempo dos correios, ou fazer relatórios e trabalhos de escola que, obviamente, nunca seriam realmente lidos), achava que os escritores eram uma espécie dentro da própria espécie humana. Quando não escrevia (ou seja, não planeava ser publicado, psicopata interessante, um tipo de exibicionismo que deveria ser melhor estudado por médicos e cientistas), acreditava que os escritores andavam pelo mundo a anotar em cadernos, blocos e mentalmente, histórias fantásticas que ficavam a espera que as musas donas daquelas narrativas aparecessem para tomar conta do trabalho, desencarnando personagens e tramas, desenrolando literários novelos. Quando não escrevia (se é que isso um dia foi uma verdade), reflectia sobre onde os escritores guardavam as suas ideias, chagando a conclusão que todos tinham uma "gaveta". A tal "gaveta" tinha (e tem) aspas, pois cedo aprendi que tudo pode ser metaforizado, ou como escreveu o poeta Gilberto Gil para ser cantado numa bela canção: "Uma lata existe para conter algo/ Mas quando o poeta diz: "Lata"/ Pode estar querendo dizer incontível". E foi mais ou menos ao mesmo tempo em que realizei que poderia ser (mesmo que mau, nada tem que ser bom para existir) um escritor, que escrevi um dos meus primeiros contos, que dizia mais ou menos assim:
"Na gaveta do escritor cabe tudo, cabem todos.
Na gaveta do escritor há rascunhos, há rabiscos, há ladrões.
Há fadas, há cabras, há poemas, espiões.
Amigos, a gaveta do escritor é, como diz o outro, um perigo.
É melhor não abri-la sem mandato do juíz, sem carta do ministro, sem autorização.
Da gaveta do escritor podem sair delírios, unicórnios, maldades.
Podem sair belas morenas, mas também dragões.
É na gaveta qe o escritor esconde a verdade, seus medos, manias, mistérios, ansiedades.
É lá que está um futuro prémio Nobel, um manifesto surrealista e uma apólice de seguro vencida.
É uma verdadeira Torre de Babel, lá falam-se línguas secretas, onde as frases começam por virgulas e terminam com dois pontos:
O escritor mente quando diz que não tem uma gaveta. Por melhor que seja, há sempre um conto incompleto, um artigo esquecido, um romance de fundo.
A gaveta do escritor é um túmulo.
Ali jazem segredos, personagens, mundos.
Se procurar com jeitinho vai encontrar um labirinto de Borges, um Pessoa obscuro.
Há canetas sem tinta, papelinhos, envelopes.
Há cigarros mofados, clips entortados, piratas torturados, miúdos reguilas, filósofos, velhotes.
Há agendas repletas, fitas cassettes, fotos antigas.
Há pó, há lixo, há vestigios do crime, há aspirinas.
Mas se quer mesmo abrir a gaveta, faça com uma certa precaução.
Passe na Papelaria Fernandes, compre um fato de abrir gavetas ou de assaltar estantes, vá então a duas ou três igrejas distantes. Peça a um padre para fazer a extrema-unção.
Depois espere que o escritor saia para encontrar a sua musa ou para tomar seus copos ou para pedir sua esmola.
Entre no seu quarto não de pé mas sim de cócoras, tomando cuidado para (...) não rasgar a blusa.
Aí então atire-se sobre a mesa, repire fundo e abra a gaveta.
Leia sem grandes citérios o que está lá escrito, marimbe-se para a falta de unidade literária, com o maralhau de estilos.
Dê gargalhadas com o que vão dizer os críticos.
Depois pense em plantar uma árvore e ter um filho.
Foi o que eu fiz. E virei um livro."»
Edson Athayde
In "Os meus livros", Maio 2009
Bárbara de Sotto e Freire

domingo, 21 de junho de 2009

A luta pelo meu, nosso, Planeta

«Olhos bem abertos, percorro a paisagem
E guardo o que vejo, para sempre, uma clara imagem
Um manto imenso de água, um pingo move o mundo,
Corrente forte exacta, de um azul quase profundo,
Um sopro de ar, faz girar, o mundo melhor,
Raio de sol, luz maior, para partilhar,
O espelho nunca mente, fiel como ninguém,
Faz da vida, paixão energia, que toca sempre mais
alguém
Vai, espelho de água, trata e guarda, o que é nosso afinal,
Em nós, vive a arte, de ser parte, de um mundo melhor,
Eu sei, que gestos banais, parecem pouco, mas talvez sejam fundamentais,
Vai, espelho de água, trata e guarda, o que é nosso afinal,
Em nós, vive a arte, de ser parte, de um mundo melhor,
Vai, espelho de água, trata e guarda, o que é nosso afinal,
Em nós,vive a arte, de ser parte, de um mundo melhor, vai.»
Paulo Gonzo
Espelho de Água
Letra retirada de:
Bárbara de Sotto e Freire

terça-feira, 12 de maio de 2009

É proibido

«É proibido chorar sem aprender,
Levantar-se um dia sem saber o que fazer
Ter medo das tuas lembranças.
É proibido não rir dos problemas
Não lutar pelo que se quer,
Abandonar tudo por medo,
Não transformar sonhos em realidade.
É proibido não demonstrar amor
Fazer com que alguém pague pelas tuas dúvidas e mau-humor.
É proibido deixar os amigos
Não tentar compreender o que viveram juntos
Chamá-los somente quando necessitas deles.
É proibido não seres tu mesmo diante das pessoas,
Fingir que elas não te importam,
Ser gentil só para que se lembrem de ti,
Esquecer aqueles que te amam.
É proibido não fazer as coisas por si mesmo (...)
Ter medo da vida e de seus compromissos,
Não viver cada dia como se fosse um último suspiro.
É proibido sentir saudades de alguém sem se alegrar,
Esquecer seus olhos, seu sorriso, só porque os seus caminhos se desencontraram,
Esquecer seu passado e pagá-lo com seu presente.
É proibido não tentar compreender as pessoas,
Pensar que as vidas deles valem mais que a tua,
Não saber que cada um tem seu caminho e sua sorte.
É proibido não criares a tua história (...)
Não ter um momento para quem necessita de ti,
Não compreenderes que o que a vida te dá, também te tira.
É proibido não buscar a felicidade,
Não viveres a tua vida com uma atitude positiva,
Não pensar que podemos ser melhores,
Não sentires que sem ti este mundo não seria igual.»
Pablo Neruda, adaptado

Bárbara de Sotto e Freire