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sexta-feira, 10 de outubro de 2014

Não sei viver sem ti...


"Pensei que fosse mais fácil contigo longe
afinal
dói muito mais a tua ausência
de que a indiferença da tua presença
por isso peço-te
volta

Sais-te a correr
nos meus olhos ficou a chover
e o sol parou de brilhar
e o vento de soprar

Um coração que fingiu
afinal foi o teu que partiu
com a minha ternura
foi para ti uma aventura

Não quero pensar que não esteja a sonhar
não quero saber se é humilhante dizer
só, te peço
volta pra mim
não aceito que chegou o fim

Não sei viver sem ti
não vou esquecer o que vivi
o que disseste, o que quiseste
foi apenas brincar sem saber que o amar
não é assim em vão
quebra-se logo o coração
onde é que errei?
o que é que não dei?
pra ver de repente que estás longe, indiferente.

Ainda sonhei
mas em vão porque logo acordei
estou tão revoltado
sinto que fui enganado

Fui parvo em acreditar
que a saudade iria ganhar
fico à espera
que um dia possas voltar

Se o céu conseguisse
que uma porta se abrisse
se o vento soprasse
e eu depois te encontrasse
quero apenas
uma explicação
porque deixaste o meu coração?

Não sei viver sem ti
não vou esquecer o que vivi
o que disseste, o que quiseste
foi apenas brincar sem saber que o amar

Não sei onde isto vai dar
eu sei que errei
vai ter que me perdoar
sabes só te peço
volta pra mim
pois eu não aceito
que chegou o fim

Não sei viver sem ti
não vou esquecer o que vivi
o que disseste, o que quiseste
foi apenas brincar sem saber que o amar
não é assim em vão
quebra-se logo o coração
onde é que errei?
o que é que não dei?
pra ver de repente que estás longe, indiferente."


Excesso

Link: http://www.vagalume.com.br/excesso/nao-sei-viver-sem-ti.html#ixzz3Ff0egZr6
 
Bárbara de Sotto e Freire
10 de Outubro de 2014

domingo, 5 de outubro de 2014

Será que o amor acontece?

Hoje pergunto-me se realmente o amor acontece.
Foste único comigo. Acompanhaste-me às consultas, deste-me carinho, amor e proteção. Fomos viver juntos, e o nosso amor aconteceu, assim, tal qual ele era, sincero e transparente, porque para mim, tu eras a minha pessoa. Aquela pessoa especial que eu amei de forma autêntica. Aquela pessoa especial que todos os dias eu tentava compreender e me dava, de forma, original, divertida e sorridente, o seu amor.
Contudo, o tempo foi-nos desgastando.
O facto de termos alguns gostos diferentes levou-nos a estar cada vez mais afastados um do outro. Eu penso que foi isso. Julgo que foi o facto de tu gostares de voar com os teus aviões telecomandados, e de eu gostar de estar em casa, a ver televisão, com uma manta e uma caneca de chá, entre muitas outras diferenças que eu poderia apontar, que nos levou a discussões que se tornaram cada vez mais acesas, cada vez mais frequentes, cada vez mais dolorosas. A certa altura senti-me incompreendida, sabes? Não conseguia perceber a tua distância. A distância do homem que eu amava. E isso ainda me fazia sofrer mais dentro do meu sofrimento. Não consigo pôr-me no teu papel e fazer de mim o meu namorado… sei que é isso que tu, que me estás a ler, neste momento, me pedes. Mas não consigo inverter os papéis. Quando tento acho sempre que teria uma postura mais compreensiva e não tão fria. Eu que no início deste relacionamento achava que era a voz do ser racional e que não deixava falar o coração! Consegues ver o quanto me mudas-te? Eu amei-te de forma tão intensa, tão intrínseca, tão mágica e única, entreguei-me a nós como se o nós fosse a razão da minha existência, e aprendi tanto! Mas sabes, sofri muito também.
 
Em Novembro a nossa relação foi à rutura. Quiseste que eu saísse de casa e a minha mãe não me deixou voltar à casa dela. Aí achei que o mundo estava do avesso. Só me questionava porquê? Porque é que o Afonso me está a causar tanto sofrimento? Porque é que a minha mãe não me aceita de volta? Qual o motivo de uma história de amor acabar assim?
Chorei todos os dias por ti. Todos os dias te liguei a suplicar uma nova oportunidade para nós. Mas tu, Afonso, estavas irredutível. Tentei, por tudo, que os teus olhos, são lindos os teus olhos, se voltassem para mim, e só algumas semanas depois tu me deste a possibilidade de falar contigo pessoalmente.
 
Tentamos de novo viver juntos. Mas no mesmo dia em que me mudo para tua casa, tu dizes-me que não estás para me aturar.
Essas foram, até hoje, as palavras que mais me doeram, que mais me feriram a alma. Por mais que lave a minha memória, não consigo esquecer estas tuas palavras. Nem tudo o que te disse foi justo, muito longe disso. Mas jamais disse algo de tão grave que ficasse gravado na tua memória, como "aquelas palavras terríveis", como "as palavras que quando lembro tenho de fechar os olhos para não doer tanto".
Não me querias aturar?! Eu também não. Eu só queria estar contigo. Partilhar a felicidade dos meus dias com o príncipe que encontrara, livrar-me da infelicidade ao lado da minha pessoa, construir algo de que me orgulhasse ao olhar para trás, sempre contigo.
De facto depois disso ainda conversamos, mas a determinada altura eu não quis mais a minha pessoa para mim. A relação estava a ser muito conturbada, estava a prejudicar-me como nestes últimos meses. Eu queria alguma estabilidade, e era tudo o que eu não tinha contigo. Em Janeiro despedi-me de ti.
Mas nunca me esqueci do homem fantástico que és, da pessoa maravilhosa com quem partilhei momentos únicos e inesquecíveis.
Nunca me esqueci do teu pequeno-almoço, das tuas chamadas, do facto de me chamares "meu amor"… Nunca me esqueci do toque das mãos, nem do teu cheiro. Neste tempo que passou, jamais me esqueci de ti Afonso. Vou levar-te comigo para onde quer que eu vá.
Guardo memórias fantásticas do tempo que passamos juntos. Adorei atirar-te à neve, Amei a primeira viagem que fizemos juntos. Tu lembras-te?! E Porto Antigo? Foram dos dias mais especiais que tive… Tenho saudades dos teus cozinhados. Quero que saibas que ficas-te guardado num lugar bem especial.
Hoje desvinculei-me de ti. Há tempo de mais que chorava pelos cantos, que sonhava contigo, que me perguntava pelo meu Afonso, sabendo que já não eras meu, que nunca tinhas sido meu, mas alguém que tinha dado uma nova luz à minha vida. Hoje decidi reaver a minha energia projectada em ti e voltar ao meu caminho.
Não é solução viver enlutada por um homem vivo. Acho, sentidamente, que mereces ser feliz. E eu também. Guardo dentro de mim o Afonso minha pessoa. Brilha por onde fores. Para onde fores. Por onde o tempo te levar.
 
Bárbara de Sotto e Freire
04 de Outubro de 2014

quarta-feira, 31 de agosto de 2011

Criança interior

«Às vezes somos possuídos por uma sensação de tristeza que não conseguimos controlar. Percebemos que o instante mágico daquele dia passou e nada fizemos. Então, a vida esconde a sua magia e a sua arte.


Temos que dar ouvidos à criança que fomos um dia e que ainda existe dentro de nós. Essa criança percebe de instantes mágicos. Podemos sufocar o seu pranto, mas não podemos calar a sua voz.


Essa criança que fomos um dia, continua presente. (...)


Se não nascermos de novo, se não tornamos a olhar a vida com a inocência e o entusiasmo da infância, viver não terá mais sentido.


Existem muitas maneiras de se cometer suicídio. Os que tentam matar o corpo ofendem a lei de Deus. Os que tentam matar a alma, também ofendem a lei de Deus, embora o seu crime seja menos vísivel aos olhos do homem.


Prestemos atenção ao que nos diz a criança guardada no peito. Não nos envergonhemos por causa dela. Não vamos deixar que ela tenha medo, porque está só e quase nunca é ouvida.


Vamos permitir que ela tome um pouco as rédeas da nossa existência. Essa criança sabe que um dia é diferente do outro.


Vamos fazer com que ela se sinta amada novamente. Vamos agradar-lhe - mesmo que isso signifique agir de uma maneira a que não estamos acostumados, mesmo que isso pareça uma tolice aos olhos dos outros.


Lembrem-se que a sabedoria dos homens é loucura diante de Deus. Se ouvirmos a criança que temos na alma, os nossos olhos tornarão a brilhar. Se não perdermos o contacto com essa criança, não perderemos o contacto com a vida




Paulo Coelho


in Na margem do rio Piedra eu sentei e chorei


Bárbara de Sotto e Freire

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

Desabafos - Fevereiro I

Estamos em Fevereiro e ainda não me deste a minha prenda de Natal.
Não sei o que pense, mas sei o que sinto.
Em estado de sítio. A precisar de mudar.
Bárbara de Sotto e Freire

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

A tua ausência

Este natal vai ser mais triste. Vai ser sem ti. Não mais vou ouvir a tua voz, não mais vou ouvir que conseguis-te ultrapassar esta ou aquela batalha. Sempre foste lutador, desde que me conheço. Lembro-me de ires lá para casa, e estarmos todos juntos, eu, tu, o meu irmão e a tua irmã. Grande tarde, essa que recordo hoje com saudade.
Não sei se sou demasiado simplista, mas acho que a nossa existência se resume a duas questões: o que fizemos durante a vida, e como se recordarão as pessoas de nós após a nossa morte.
Tu bem sabes que conquistas-te as pessoas. Bem sabes que as tuas limitações fisicas te elevaram a um patamar bem mais alto que nós, na nossa limitada e mesquinha perfeição, nos permitem fazer. Lamento e choro a tua ausência. Hoje, este natal. Sempre. Como se a tua ausência tivesse tocado num ponto muito sensível de mim, e me tivesse feito pensar que afinal não tenho dado o meu melhor, não tenho amado no meu todo.
Este natal vai ser mais triste também por ti. Porque tiveste um acidente, e estás deprimido, numa cadeira de rodas, e eu não sei que te dizer. Chego à tua beira, mas não junto de ti. Queria abraçar-te e dizer que te adoro e que és uma pessoa espectular e que sem ti eu não sou, mas não consigo. Estás rezingão, e eu rezingona, perdida num mutismo que é meu, e que só eu conheço, numa zanga que é só minha, numa luta que travo com Deus, a perguntar-lhe porque é que não sou eu que estou no teu lugar. Não é justo.
Este natal vai ser mais triste porque eu te dou um pouco da minha alma, e tu magoas-me a alma inteira. E eu nem assim aprendo. E viras-me as costas, e surges do nada, novamente, pronto para mais uma investida, e eu vou outra vez. Numa amizade em que dar e receber não são os mesmos pratos da balança.
Este natal vai ser mais triste porque tu estás esquecido, e quase não me conheces. Tu. Eu que era a menina dos teus olhos. E agora, quase não sabes quem eu sou, ou o que faço.
Este natal vai ser mais triste, porque penso em tudo o que fiz e não o faria hoje. Em todas as escolhas que faria de uma forma diferente, oposta, contrária. Nas pessoas que teria amado mais, nas pessoas que não teria amado. Penso sobretudo nas coisas que não fiz, e no tempo que começa a passar demasiado depressa.
A vida teima em ensinar aquilo que não queremos aprender, daí que tenha a sensação que se repita em ciclos. Hoje choro a tua ausência, as vossas auências, a tua e a tua também.
Este natal vais ser mais triste, porque hoje, esta manhã fria, e por isso real, sinto que não sou quem me sonhei. Sinto que esta não é a vida que risquei para mim. E pergunto-me: o que fiz durante a minha vida?, como se recordarão de mim as pessoas após a minha morte?.
Bárbara de Sotto e Freire

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

Viver de novo

«Se tivesse de viver de novo a minha vida, não procuraria ser tão perfeito. Relaxaria um pouco mais. Seria um pouco mais flexível. Não levaria tantas coisas a sério. Faria mais loucuras, não seria tão circunspecto, nem tão equilibrado. Aproveitaria mais as oportunidades, faria mais experiências, escalaria mais montanhas, nadaria em mais rios, contemplaria mais pores do sol, comeria mais gelados. Teria mais preocupações reais e menos imaginadas.
Eu fui um desses que vivem com um método e uma higiene absolutos, hora após hora, dia após dia. Um desses que não vão a lado nenhum sem um termómetro, uma camisola de lã, um produto para enxaguar a boca. Teria viajado mais leve. Faria mais excursões e brincaria mais com as crianças.»
Carta escrita por um homem de oitenta e cinco anos, na véspera da sua morte, dirigida aos seus netos.
«A vida é um banquete e a maioria dos malditos loucos morre de fome.»
Ele sabe que somos assim;Henrique Manuel
Bárbara de Sotto e Freire

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

Razão para vivê-la

Por vezes queremos que a vida pare. Queremos emoldurar momentos, sentimentos, pessoas. Queremos perpetuar numa imagem muito nossa o sorriso, um elogio, um olhar. Por vezes quero que o tempo volte para atrás para amar até ao limite, odiar no limiar da resistência, sentir no mais profundo do sentimento. Impossível voltar atrás, mas também dificil de andar adiante, por não nos termos exultado até à maior perfeição de sentir. Então restam-nos essas maravilhosas fotografias, onde criopreservamos o nosso futuro emocional. Imagens de momentos, de sorrisos, de silêncio. Momentos de aplausos pendurados no tempo, que nos perseguem incessantemente. Silêncios desencontrados, como notas soltas, num mundo que construímos diariamente. E é nesse limite, em que o presente se toca com ontem, em que os átomos enaltecem a cor do pôr-do-sol, em que a utopia é realidade, que a vida nos dá razão para vivê-la.
Bárbara de Sotto e Freire

quarta-feira, 12 de agosto de 2009

Ás vezes

Ás vezes choramos sem razão. Ás vezes choramos com uma dor de alma profunda, como se a nossa alma só conhecesse um lado.
Ás vezes os dias correm mal.
Ás vezes sentimo-nos perdidos, sozinhos, nostálgicos.
Não suportamos ver ninguém, muito menos a nossa imagem no espelho.
Ás vezes não nos apercebemos do quanto as pessoas nos ferem, nos magoam, nos decepcionam. Quando muito, não nos damos conta, do quanto nos podemos decepcionar a nós mesmos.
Ás vezes os dias passam rápido.
Ás vezes não tomamos as decisões certas, no tempo devido.
Não amamos na mesma medida.
Ás vezes amamos tanto, que ficamos vazios.
Ás vezes sentimos que a nossa vida é feita apenas de despedidas, sem ter sido possível, alguma vez, gravar nos olhos da alma, os olhos de quem vai.
Ás vezes não gozamos o momento, não sorrimos genuinamente.
Ás vezes queremos mimo.
Ás vezes nem a carapaça da indiferença nos permite resistir aos mais afiados aguilhões.
Ás vezes é mais fácil enfiar a cabeça na areia, porque temos medo do desconhecido, temos medo de falhar. Falhar com os nossos sonhos e promessas de outrora. Ás vezes somos a nossa própria desilusão.
Ás vezes tornámo-nos os melhores. Ou os piores.
Ás vezes achamos que a vida só nos coloca obstáculos.
Ás vezes não somos suficientemente inocentes para acreditar na vida, e somos levianamente perspicazes levados a acreditar que alguém, um dia, nos poderá entender.
Bárbara de Sotto e Freire

quarta-feira, 15 de julho de 2009

A gaveta do escritor

«Quando não escrevia (ou seja, quando apenas debitava letras em papéis, algumas delas formando palavras e consequentes frases, mas sem nenhuma intenção de contar histórias, como responder a uma carta, pois sou do tempo dos correios, ou fazer relatórios e trabalhos de escola que, obviamente, nunca seriam realmente lidos), achava que os escritores eram uma espécie dentro da própria espécie humana. Quando não escrevia (ou seja, não planeava ser publicado, psicopata interessante, um tipo de exibicionismo que deveria ser melhor estudado por médicos e cientistas), acreditava que os escritores andavam pelo mundo a anotar em cadernos, blocos e mentalmente, histórias fantásticas que ficavam a espera que as musas donas daquelas narrativas aparecessem para tomar conta do trabalho, desencarnando personagens e tramas, desenrolando literários novelos. Quando não escrevia (se é que isso um dia foi uma verdade), reflectia sobre onde os escritores guardavam as suas ideias, chagando a conclusão que todos tinham uma "gaveta". A tal "gaveta" tinha (e tem) aspas, pois cedo aprendi que tudo pode ser metaforizado, ou como escreveu o poeta Gilberto Gil para ser cantado numa bela canção: "Uma lata existe para conter algo/ Mas quando o poeta diz: "Lata"/ Pode estar querendo dizer incontível". E foi mais ou menos ao mesmo tempo em que realizei que poderia ser (mesmo que mau, nada tem que ser bom para existir) um escritor, que escrevi um dos meus primeiros contos, que dizia mais ou menos assim:
"Na gaveta do escritor cabe tudo, cabem todos.
Na gaveta do escritor há rascunhos, há rabiscos, há ladrões.
Há fadas, há cabras, há poemas, espiões.
Amigos, a gaveta do escritor é, como diz o outro, um perigo.
É melhor não abri-la sem mandato do juíz, sem carta do ministro, sem autorização.
Da gaveta do escritor podem sair delírios, unicórnios, maldades.
Podem sair belas morenas, mas também dragões.
É na gaveta qe o escritor esconde a verdade, seus medos, manias, mistérios, ansiedades.
É lá que está um futuro prémio Nobel, um manifesto surrealista e uma apólice de seguro vencida.
É uma verdadeira Torre de Babel, lá falam-se línguas secretas, onde as frases começam por virgulas e terminam com dois pontos:
O escritor mente quando diz que não tem uma gaveta. Por melhor que seja, há sempre um conto incompleto, um artigo esquecido, um romance de fundo.
A gaveta do escritor é um túmulo.
Ali jazem segredos, personagens, mundos.
Se procurar com jeitinho vai encontrar um labirinto de Borges, um Pessoa obscuro.
Há canetas sem tinta, papelinhos, envelopes.
Há cigarros mofados, clips entortados, piratas torturados, miúdos reguilas, filósofos, velhotes.
Há agendas repletas, fitas cassettes, fotos antigas.
Há pó, há lixo, há vestigios do crime, há aspirinas.
Mas se quer mesmo abrir a gaveta, faça com uma certa precaução.
Passe na Papelaria Fernandes, compre um fato de abrir gavetas ou de assaltar estantes, vá então a duas ou três igrejas distantes. Peça a um padre para fazer a extrema-unção.
Depois espere que o escritor saia para encontrar a sua musa ou para tomar seus copos ou para pedir sua esmola.
Entre no seu quarto não de pé mas sim de cócoras, tomando cuidado para (...) não rasgar a blusa.
Aí então atire-se sobre a mesa, repire fundo e abra a gaveta.
Leia sem grandes citérios o que está lá escrito, marimbe-se para a falta de unidade literária, com o maralhau de estilos.
Dê gargalhadas com o que vão dizer os críticos.
Depois pense em plantar uma árvore e ter um filho.
Foi o que eu fiz. E virei um livro."»
Edson Athayde
In "Os meus livros", Maio 2009
Bárbara de Sotto e Freire

domingo, 21 de junho de 2009

A luta pelo meu, nosso, Planeta

«Olhos bem abertos, percorro a paisagem
E guardo o que vejo, para sempre, uma clara imagem
Um manto imenso de água, um pingo move o mundo,
Corrente forte exacta, de um azul quase profundo,
Um sopro de ar, faz girar, o mundo melhor,
Raio de sol, luz maior, para partilhar,
O espelho nunca mente, fiel como ninguém,
Faz da vida, paixão energia, que toca sempre mais
alguém
Vai, espelho de água, trata e guarda, o que é nosso afinal,
Em nós, vive a arte, de ser parte, de um mundo melhor,
Eu sei, que gestos banais, parecem pouco, mas talvez sejam fundamentais,
Vai, espelho de água, trata e guarda, o que é nosso afinal,
Em nós, vive a arte, de ser parte, de um mundo melhor,
Vai, espelho de água, trata e guarda, o que é nosso afinal,
Em nós,vive a arte, de ser parte, de um mundo melhor, vai.»
Paulo Gonzo
Espelho de Água
Letra retirada de:
Bárbara de Sotto e Freire

terça-feira, 12 de maio de 2009

É proibido

«É proibido chorar sem aprender,
Levantar-se um dia sem saber o que fazer
Ter medo das tuas lembranças.
É proibido não rir dos problemas
Não lutar pelo que se quer,
Abandonar tudo por medo,
Não transformar sonhos em realidade.
É proibido não demonstrar amor
Fazer com que alguém pague pelas tuas dúvidas e mau-humor.
É proibido deixar os amigos
Não tentar compreender o que viveram juntos
Chamá-los somente quando necessitas deles.
É proibido não seres tu mesmo diante das pessoas,
Fingir que elas não te importam,
Ser gentil só para que se lembrem de ti,
Esquecer aqueles que te amam.
É proibido não fazer as coisas por si mesmo (...)
Ter medo da vida e de seus compromissos,
Não viver cada dia como se fosse um último suspiro.
É proibido sentir saudades de alguém sem se alegrar,
Esquecer seus olhos, seu sorriso, só porque os seus caminhos se desencontraram,
Esquecer seu passado e pagá-lo com seu presente.
É proibido não tentar compreender as pessoas,
Pensar que as vidas deles valem mais que a tua,
Não saber que cada um tem seu caminho e sua sorte.
É proibido não criares a tua história (...)
Não ter um momento para quem necessita de ti,
Não compreenderes que o que a vida te dá, também te tira.
É proibido não buscar a felicidade,
Não viveres a tua vida com uma atitude positiva,
Não pensar que podemos ser melhores,
Não sentires que sem ti este mundo não seria igual.»
Pablo Neruda, adaptado

Bárbara de Sotto e Freire

O Mostrengo

«O mostrengo que está no fim do mar
Na noite de breu ergueu-se a voar;
À roda da nau voou três vezes,
Voou três vezes a chiar,
E disse: "Quem é que ousou entrar
Nas minhas cavernas que não desvendo
Meus tectos negros do fim do mundo?"
E o homem do leme disse, tremendo:
"El-Rei D. João Segundo!"
"De quem são as velas onde me roço?
De quem as quilhas que vejo e ouço?"
Disse o mostrengo e rodou três vezes,
Três vezes rodou imundo e grosso.
"Quem vem poder o que só eu posso,
Que moro onde nunca ninguém me visse
E escorro os medos do mar sem fundo?"
E o homem do leme tremeu, e disse:
"El-Rei D. João Segundo!"
Tês vezes do leme as mãos ergueu,
Tês vezes ao leme as repreendeu,
E disse no fim de tremer três vezes:
"Aqui ao leme sou mais do que eu:
Sou um povo que quer o mar que é teu;
E mais que o mostengo que minh'alma teme
E roda nas trevas da fim do mundo
Manda a vontade que me ata ao leme,
De El-Rei D. João Segundo!"»
Fernando Pessoa
Mensagem, 1934
Bárbara de Sotto e Freire

segunda-feira, 11 de maio de 2009

Fundo do mar





«No fundo do mar há brancos pavores,
Onde as plantas são animais
E os animais são flores.

Mundo silencioso que não atinge
A agitação das ondas.
Abrem-se rindo conchas redondas,
Baloiça o cavalo-marinho.
Um polvo avança
No desalinho
Dos seus mil braços,
Uma flor dança,
Sem ruído vibram os espaços.

Sobre a areia o tempo poisa
Leve como um lenço.

Mas por mais bela que seja cada coisa
Tem um monstro em si suspenso.»



Sophia de Mello Breyner Andresen
Obra Poética I





Bárbara de Sotto e Freire

domingo, 10 de maio de 2009

Deixa-te ficar na minha casa

«Tenho livros e papéis espalhados pelo chão.
A poeira duma vida deve ter algum sentido:
Uma pista, um sinal de qualquer recordação,
Uma frase onde te encontre e me deixe comovido.
Guardo na palma da mão o calor dos objectos
Com as datas e locais, por que brincas, por que ris
E depois o arrepio, a memória dos afectos
Mmmmmm Que me deixa mais feliz.
Deixa-te ficar na minha casa.
Há janelas que tu não abriste.
O luar espera por ti
Quando for a maré vasa.
E ainda tens que me dizer
Porque é que nunca partiste...
Está na mesma esse jardim com vista sobre a cidade
Onde fazia de conta que escapava do presente,
Qualquer coisa que ficou que é da nossa eternidade.
Mmmmmmm Afinal, eternamente.
Deixa-te ficar na minha casa.
Há janelas que tu não abriste.
Deixa-te ficar na minha casa.
Há janelas que tu não abriste.
O luar espera por ti
Quando for a maré vasa.
E ainda tens que me dizer
Porque é que nunca partiste...»
Deixa-te ficar na minha casa
Filarmónica Gil; Composição: João Gil
Bárbara de Sotto e Freire

sábado, 9 de maio de 2009

Sonhar e Ser

«Nunca é tarde demais para ser aquilo que sempre se desejou ser.»
George Eliot
Bárbara de Sotto e Freire

sexta-feira, 8 de maio de 2009

O tempo certo

«Quando se deixa passar o momento certo, quando alguém recusou algo tempo demais, quando algo nos é recusado tempo demais, esse algo chega forçosamente demasiado tarde mesmo que seja desejado com força e colhido com alegria.
Talvez tarde de mais não exista, apenas "tarde", e "tarde" seja melhor que nunca? Não sei.»
O Leitor
Bernhard Schilnk
Bárbara de Sotto e Freire

Fugir (da vida)

«Eu fugia. E sentia-me aliviado por poder fugir... Mas fugir não é somente partir, é chegar também a outro lado.»
O Leitor
Bernhard Schilnk
Bárbara de Sotto e Freire

sexta-feira, 1 de maio de 2009

Antigamente

"Abrindo um antigo caderno
foi o que eu descobri:
antigamente eu era eterno."
Paulo Leminski
Bárbara de Sotto e Freire

domingo, 26 de abril de 2009

Descobri...

"Descobri que a minha obsessão de que cada coisa estivesse no seu lugar, cada assunto no seu tempo, cada palavra no seu estilo, não era o prémio merecido de uma mente ordenada mas, pelo contrário, um sistema complexo de simulação inventado por mim para ocultar a desordem da minha natureza. Descobri que não sou disciplinado por virtude, mas como reacção contra a minha negligência; que pareço generoso para encobrir a minha mesquinhez, que passo por prudente por ser pessimista, que sou conciliador para não sucumbir ás minhas cóleras reprimidas, que só sou pontual para que não se saiba que pouco me importa o tempo alheio. Descobri, por fim,que o amor não é um estado de alma mas um signo do Zodíaco."
Gabriel García Márquez
Bárbara de Sotto e Freire

segunda-feira, 6 de abril de 2009

Eu queria (muito) esta viagem

"Agarras-te à hora em que o tempo não passou
Mergulhas nas cores que a loucura te emprestou
E quando te vês para lá do espelho
Encontras a solidão.
Descobres o mundo de quem tem pouco a perder
E sobes às estrelas que ontem não podias ver
E perdes o medo de estar só
No meio da multidão
Tradições atrás de contradições
Fizeram-te abrir os olhos
Podes dizer: eu sou."
Viagem na palma da mão
Jorge Palma
Bárbara de Sotto e Freire